Captulo 2

A Psicologia como Cincia Jovem

Corno vimos at agora, a experincia direta  a matria-prima tanto da Fsica quanto da Psicologia. Se,
apesar dsse fato, as cincias fsicas se acham to  frente da Psicologia, que poderemos fazer a fim de
conseguir realizar conquistas semelhantes? 
Uma vantagem com que conta a Fsica contempornea vem de uma cuidadosa seleo das experincias que 
desempenham um papel importante nos momentos decisivos das pesquisas fsicas. Como  muito natural, o 
fsico no leva em considerao tda a experincia subjetiva, descrita no primeiro captulo, porque os 
sentimentos, emoes, etc. parecem no ter analogia com os acontecimentos do mundo fsico. Tdas as 
dificuldades do psiclogo que procura observar e descrever fenmenos subjetivos so, assim, simplesmente 
evitadas na cincia fsica. 
A seleo e excluso, porm, no se detm a. Ao passo que, a princpio, as experincias objetivas eram sempre 
consideradas corno provas de fatos fsicos correspondentes, um nvo conceito mais crtico da situao 
provocou tambm a eliminao de grande parte dsse material. Hoje, o processo de seleo passou a ser 
extremamente severo. Assim, por exemplo, o progresso da cincia tornou possvel transformar quase sempre a 
observao qualitativa em medies quantitativas. Tdas as medies fsicas, virtualmente, so feitas, agora, 
de maneira extremamente indireta. Poucas vzes o fsico observa diretamente aquilo que deve ser considerado 
como a verso experimental da varivel fsica em questo; ao contrrio, sua observao se refere a uma 
experincia diferente, que tem a virtude de prestar-se a uma determinao mais rigorosa. Nesta, naturalmente, 
pode-se assegurar o conhecimento da relao entre a experincia posterior e a varivel fsica. De tdas as 
experincias objetivas, nenhuma parece satisfazer melhor s exig&icias do fsico que a localizao de uma linha 
visual (um ponteiro) em uma escala de outras linhas visuais, especialmente se tal localizao acarreta a 
coincidncia da primeira linha com uma das outras. Na verdade, foram reduzidas a um mnimo as variedades de 
experincias que ainda esto sendo usadas para a medio. Chega-se quase a ter a impresso de que a mesma 
escala e o mesmo ponteiro esto sendo usados universalmente. Essa simples situao oferece ao fsico uma 
centena de informaes totalmente diferentes acrca do mundo fsico. Pode apresentar provas referentes a 
atmosferas ou volts, ampres ou temperaturas, etc., quase ad infinitum. Alm de observar as 
coincidncias e verificar a conexo de seu aparelho com o sistema que est sendo investigado, o fsico s 
precisa ler certas palavras e algarismos na escala. No consta do processo qualquer outra experincia mais 
direta que esta. Em tais circunstncias, no pode haver muita oportunidade para inexatides. Graas a essa 
vantagem, mesmo um fato to simples como o tamanho fsico no  medido diretamente, O fsico no mede o 
comprimento de um objeto pela comparao direta com o comprimento de um objeto padro. Tal comparao 
no seria bastante precisa; alm disso, poderia ser prejudicada por iluses de tica. Assim, o fsico prefere o 
mtodo de linhas ou pontos coincidentes. Na realidade, le define o comprimento fsico por sse mtodo e, em 
seguida, mede o comprimento de um objeto observando a coincidncia de seus limites com certos pontos de 
uma escala. 
Indaguemos agora o que aconteceria se, na Psicologia, tivssemos de imitar o processo das cincias fsicas. 
Duas respostas poderiam ser dadas  pergunta, porque o processo tem dois aspectos. Em primeiro lugar, le 
implica a apresentao de afirmaes sbre sistemas fsicos com base na experincia objetiva. Ora, a conduta 
dos homens e dos animais tambm pode ser observada por meio de experincias objetivas, observaes em 
que a experincia direta dos sujeitos no representa papel algum. Sem dvida alguma, tal estudo do 
comportamento  perfeitamente legtimo e ser, portanto, mais aperfeioado no futuro. Na verdade, j existia 
antes de surgir o behavorismo; esta escola, porm, tem razo, fundamentalmente, em exaltar as vantagens do 
processo objetivo em antagonismo  introspeco. Embora os seus adeptos tenham ido muito longe, deixando 
de admitir que, mesmo nos mtodos objetivos, a experincia direta do observador constitui a matria-prima, seu 
rro no tem importncia particular enquanto fr dada a resposta adequada  nossa segunda pergunta. 
Infelizmente, a sse respeito, o bebaviorismo adota urna posio errnea. 
Na Fsica atual, como vimos, os processos objetivos se caracterizam pelo uso de um pequeno grupo de 
experincias objetivas selecionadas e, conseqentemente, pela excluso de tdas as outras, porque elas no 
satisfazem s exigncias da medio quantitativa. Deveremos fazer a 
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mesma coisa na Psicologia, tomada como cincia do comportamento? Evidentemente, a resposta depender da natureza do 
comportamento observado.  difcil julgar-se um mtodo intrinsecamente. Um mtodo  bom se fr bem adaptado  
matria investigada e mau se no se adapta a sse material ou se prejudica as pesquisas. Assim, um processo que se 
mostrou excelente em uma determinada cincia, ou para alguns determinados problemas, pode ser de todo intil, ou mesmo 
nocivo, em outra cincia, ou para outros problemas. A sse respeito, convm lembrar que, como fcilmente se constata, o 
comportamento apresenta aspectos perfeitamente diferentes, oferecendo ao psiclogo tarefas correspondentemente 
diferentes. Onde quer que os mtodos quantitativos indiretos, semelhantes aos da Fsica, possam ser aplicados na 
conformidade de nossa tarefa, naturalmente devem ser aplicados. Por exemplo: 
C. P. Richter e seus colaboradores descobriram um mtodo, graas ao qual podem ser investigados os diferentes impulsos 
dos animais e suas variaes no decorrer do tempo. O mtodo consiste em registrar numricamente atividades gerais ou 
especiais. Naturalmente, todos aqules que se dedicam ao estudo do comportamento mostram-se viva- mente interessados 
pelo progresso futuro dessa tcnica. sse  o processo correto nos casos em que as quantidades totais de atividade em 
relao s condies externas e internas fornecem informaes valiosas. 
Que diremos, porm, sbre outros casos em que, ou os nossos problemas no so do tipo quantitativo, ou em que no 
temos meio de substituir a observao direta pela observao de outros fatos mais bem adaptados  medio precisa? 
Evidentemente, os vrios tipos qualitativos de comportamento no so menos importantes que as diferenas quantitativas 
dentro de determinado tipo. Desde que tenhamos conhecimento acrca de tais variedades qualitativas e tambm acrca do 
tipo especial do qual tratamos em determinado caso, torna-se extremamente importante a questo da medio quantitativa. 
De qualquer maneira, porm, deve ser feita em primeiro lugar a discriminao de tipos qualitativos. Assim, durante a 
observao de um cachorrinho, devemos indagar se o comportamento do animal representa uma atividade ldica ou uma 
reao mais sria s condies existentes. Tal questo no implica, necessriamente, uma vida mental no cachorrinho; 
refere-se, antes, a uma diferena caracterstica da que est sendo realmente observada. Essa diferena  de qualidade de 
conduta. Tambm, quando observamos um homem em uma situao um tanto crtica, pode ser essencial observar se le nos 
fala com voz firme ou trmula. Esta , hoje, uma discriminao essencialmente qualitativa. Para o futuro talvez seja 
descoberto um mtodo, graas ao qual possa ser medida a firmeza da voz. Mesmo, contudo, se tal mtodo fr 
adequadamente aplicado, ainda nos resta saber, por meio da observao direta, o que consideramos por firmeza e falta de 
firmeza como caracterstica 
1 Cf. C. P. Richter Animal Behaviour and Intornai Drives, Quarterly Re,.1.ew o! Eiology, 2, 1927. 
temporria da voz humana. De outro modo, correramos o perigo de medir outra coisa. 
 igualmente restrita a aplicao dos mtodos indiretos a muitas outras formas de comportamento. Os adeptos 
do behaviorismo, como  sabido, afirmam que podemos investigar o comportamento emocional dos sujeitos 
sem nos preocupar com suas experincias subjetivas. De qualquer maneira, nesse caso os psiclogos tm, 
muitas vzes, procurado transferir a observao para campos em que seja possvel o registro e a medio 
precisos. Muito esfro tem sido feito para se criarem e se aperfeioarem mtodos pneumogrficos, 
pletismogrficos, galvanogrficos, etc. O resultado, porm, no  muito animador, uma vez que, ainda nesse 
caso, nossa interpretao das curvas registradas depende inteiramente da observao direta e simultnea, quer 
das experincias do sujeito, quer de seu comportamento em um sentido qualitativo mais geral. De modo algum 
nos julgamos aptos a tirar concluses apenas das curvas. Atualmente, tais mtodos apresentam-se mais como 
problemas em si mesmos do que como instrumentos de ajuda para a soluo dos problemas psicolgicos. De 
um modo geral, o processo mais fcil e mais seguro continua a ser o de observar a clera no comportamento de 
um sujeito como tal, do que, por exemplo, medir a adrenalina em seu sangue. 
Por que motivo tal dificuldade aflige a Psicologia e no parece existir na Fsica? A resposta  bem simples: a 
Fsica  uma cincia antiga e a Psicologia est na infncia. Os fsicos levaram sculos para, pouco a pouco, 
substituir observaes diretas e mais qualitativas por outras indiretas, mas grandemente precisas. Seu xito se 
deveu ao conhecimento do mundo fsico prviamente adquirido. A maior parte das medies e mtodos 
indiretos pressupe uma ampla base de informaes. Os fsicos tiveram de colhr essas informaes, quando 
suas observaes ainda eram mais qualitativas e menos precisas. Smente dessa maneira puderam descobrir 
aquelas importantes relaes fsicas, graas s quais a observao direta e qualitativa  hoje to amplamente 
substituda pela medio indireta e precisa. Oersted teve de descobrir a deflexo de um m nas proximidades 
de uma corrente eltrica, antes que se tornassem possveis medies exatas das intensidades das correntes. 
Sua observao foi qualitativa e direta, mas o fruto foi um processo indireto e quantitativo. Mesmo em nossos 
dias, Rentgen no procedeu a medies imediatamente aps ter descoberto os raios X. Antes de mais nada, 
teve de analisar suas propriedades em experimentao qualitativa. Mais tarde, sem dvida, seus raios puderam 
tornar-se um meio de medir as constantes dos cristais. Esquecemo-nos com muita facilidade do fato de que, no 
como, mas tambm quando surgem novos campos mais particularizados, as cincias naturais dependem 
quase completamente da observao qualitativa. No resta a menor dvida de que os mtodos indiretos e 
quantitativos constituem, presentemente, 
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a feio mais destacada das cincias exatas, principalmente para o leigo, que admira de fora tais disciplinas. 
Devemos, porm, comprender que, na maioria dos casos, tais mtodos representam simples aperfeioamento 
de mtodos originais, mais diretos e qualitativos. Smente contando com essa base pde ser construda a 
super-estrutura aperfeioada. No Sculo XVIII, Cavendish media as resistncias de materiais diferentes, 
comparando os choques produzidos em seu brao por pedaos geomtricamente equivalentes daqueles 
materiais, quando tocava um plo da bateria com aqules pedaos e o segundo plo com a outra mo. Seria 
errado? Ao contrrio. O processo era perfeitamente vlido para um campo ento nvo. Graas a le, Cavendish 
adquiriu conhecimento preliminar de fatos que puderam, ento, ser utilizados para a criao de mtodos mais 
precisos. 
Segue-se que, sempre que nos deparemos, na Psicologia, com um bom problema quantitativo e com um mtodo 
igualmente preciso para medi-lo, devemos sem demora aplicar processos comparveis aos usados na Fsica. Os 
problemas que Galileu enfrentou no Sculo XVII puderam ser resolvidos de pronto, quantitativamente, porque, 
naquele caso, a experincia qualitativa da vida quotidiana oferecia a base necessria. O caso, no entanto, no  
o mesmo na maior parte dos problemas de Psicologia. Onde, em Psicologia, temos conhecimento de 
importantes relaes funcionais em que se possam basear as medies indiretas e exatas? No existe. Assim, 
se a criao de mtodos mais exatos pressupe a existncia de tal conhecimento, nossa primeira tarefa deve 
consistir em sua aquisio. Em sua maior parte, nosso avano preliminar nessa direo tem de ser grosseiro. 
As pessoas que protestam em nome da exatido no compreendem nossa situao na Psicologia. No 
percebem nem a natureza, nem os antecedentes histricos dos mtodos indiretos e quantitativos. Se quisermos 
imitar as cincias fsicas, no poderemos imit-la em sua forma contempornea, altamente desenvolvida, mas, 
sim, em sua juventude histrica, quando seu estado de desenvolvimento era comparvel ao da prpria 
Psicologia atualmente. De outro modo, estaramos fazendo o papel de meninos que tentassem copiar os modos 
compenetrados dos adultos, sem compreender sua raison dtre e sem perceber, tambm, que no podem ser 
postas de lado as fases intermedirias ao desenvolvimento. A sse respeito,  muito esclarecedor um exame da 
histria da Fsica. Se quisermos seguir os passos das cincias naturais, teremos de faz-lo com inteligncia. 
O comportamento tem enorme riqueza de matizes. Smente se reconhecermos essa riqueza e a estudarmos 
diretamente, podero ser descobertos, aos poucos, processos quantitativos que cumpram nosso objetivo. 
Presentemente, e em uma perspectiva histrica mais ampla, a observao qualitativa pode, muitas vzes, ser 
mais fecunda do que medies prematuras. 
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Se os organismos fssem mais semelhantes aos sistemas estudados pela Fsica poderiam ser introduzidos em nossa cincia, sem 
grandes alteraes, muitos mtodos utilizados peios fsicos. Na realidade, porm, a semelhana no  muito grande. Uma das 
vantagens, que torna to mais fcil o trabalho do fsico,  a simplicidade muito maior de seus sistemas. stes sistemas so 
simples porque, at certo ponto, o prprio experimentador determina suas propriedades. Estou longe de acreditar que os 
processos orgnicos sejam de qualidade sobrenatural. Ao contrrio, a mais notvel diferena entre o organismo e um simples 
sistema fsico  a enorme quantidade de processos fsicos e qumicos que, em inter-relaes complicadas, ocorrem em dado 
momento no organismo. Somos de todo incapazes de criar mesmo os mais simples sistemas orgnicos para o estudo elementar. 
Uma ameba  um sistema mais complicado que todos os sistemas do mundo inanimado. Sabemos tambm que, estudando, por 
exemplo, as propriedades de uma preparao nervo-muscular, no estamos investigando uma parte do comportamento 
natural. As caractersticas funcionais de tal preparao diferem das caractersticas que os mesmos nervo e misculo mostram, 
quando atuando dentro do comportamento normal. Alguns adeptos do behaviorismo tm razo, quando dizem que  todo o 
organismo que deve ser estudado. Infelizmente, no organismo em seu conjunto, raramente podemos acompanhar a mudana de 
uma varivel particular, como se apenas ela fsse afetada por determinada alterao das condies externas. A alterao de um 
fator habitualmente acarreta alteraes concomitantes de muitos outros, e estas ltimas, por sua vez, afetam as primeiras. Ora, 
o isolamento das relaes funcionais e a reduo de variveis que participam de um fenmeno constituem os grandes artifcios, 
graas aos quais as pesquisas exatas so facilitadas na fsica. Uma vez que essa tcnica no  aplicvel  Psicologia, uma vez que 
temos de tomar o organismo mais ou menos como le , ser aceitvel, em nosso caso, qualquer espcie de observao que se 
refira ao comportamento dos sujeitos observados quando tomados como unidades ativas e complexas. 
Na verdade, contudo, a jovem Psicologia no pde resistir  tentao provocada pelas brilhantes conquistas da cincia 
contempornea. De vez em quando,  varrida por uma onda de pouco clarividente imitao. O prprio Fechner foi o primeiro a 
copiar a Fsica adulta, quando a Psicologia mal havia nascido. Estava convencido, segundo parece, de que a medio era 
suficiente, por si mesma, para fazer da Psicologia uma cincia. O resultado  bem conhecido. A medio, de formidvel 
eficincia quando  a continuao aperfeioada da observao qualitativa anterior, transforma-se, fcilmente, em uma rotina 
intil, quando desprovida de tal preparao. Hoje em dia, j no  licito negar que milhares de experincias quantitativas 
psicolgicas foram feitas quase em vo. Ningum sabia exatamente o que estava medindo. Ningum havia estudado os processos 
mentais em que se baseava todo o processo. Parece que, no tempo de Fechner a Psicologia tornou-se uma cincia, no devido  
sua psicofsica, mas apenas ocasionalmente e a despeito do programa quantitativo prematuro. 
Parece que, nesse meio tempo, a lio foi esquecida. Quando se observa a energia com que psiclogos capazes medem 
inteligncias individuais, quase se tem a impresso de estar no tempo de Fecbner.  verdade que, do ponto de vista prtico, sse 
trabalho no deixa de ter valor. Parece que, a grosso modo, uma capacidade geral para certas 
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tarefas , de fato, medida por meio dsses testes, pois, em conjunto, os resultados dos testes apresentam uma 
correlao satisfatria com os resultados obtidos, tanto na vida escolar como na vida prtica posterior. sse 
prprio sucesso, contudo, acarreta grave perigo. Os testes no mostram que processos especficos realmente 
participam dles. Os resultados apresentados so simples nmeros, suceptveis de muita interpretaes 
diferentes. Falando-se figuradamente, dado resultado pode significar: grau 3 de inteligncia, juntamente com 
grau 1 de preciso, grau 4 de ambio e grau 3 de rapidez de fadiga, etc. ste mesmo resultado, porm, 
tambm pode significar inteligncia 6, preciso 2, ambio 1 e rapidez de fadiga 4, etc. Assim, as 
combinaes de certos componentes em propores variveis podem ser exatamente o mesmo Q. 1.  claro 
que isso tem importncia, mesmo para finalidades prticas. Por exemplo: uma criana deve ser tratada de 
acrdo com a natureza e o vigor dos fatres especficos que cooperaram para o clculo do Q. 1. total. Esta 
crtica no constitui novidade, sem dvida, mas nunca  demais repeti-la, tendo-se em vista a influncia que os 
testes adquiriram em nossas escolas. Ainda estamos demasiado satisfeitos com os nossos testes porque, 
como processos quantitativos, les se mostram to sedutoramente cientficos. Mais uma vez, devo insistir que 
se trata de uma impresso superficial. Se compararmos a execuo dos testes com a conduta de nosso ideal, o 
fsico, encontraremos uma flagrante diferena. Que perguntas formula o fsico, quando se v diante de nvo 
campo de pesquisas? So perguntas dste tipo: A luz  um processo oscilatrio? Em caso afirmativo, oscila na 
direo da propagao ou perpendicularmente quela direo? O magnetismo  produzido por campos 
magnticos de correntes elementares em estruturas moleculares? Por que a tenso superficial d formas 
regulares aos liquidos e camadas liquidas? Como pode o espectro de um elemento conter milhares de linhas 
diferentes?  por perguntas dste tipo que o fsico se interessa. Em tais perguntas formula le seus problemas 
fundamentais.  verdade que, quando procura encontrar as respostas, emprega, em estgios definidos, 
tcnicas quantitativas que facilitam grandemente o processo. Tambm as emprega para formular leis exatas. 
Tudo isso, porm,  governado por suas indagaes acrca da natureza dos fenmenos e das coisas. Sero 
determinados fenmenos de uma espcie ou de outra? Tais so os principais problemas da cincia 
experimental, na pesquisa dos quais a medio pode-se tornar da maior importncia. 
Se indagarmos que problemas concernentes aos processos relacionados com o comportamento inteligente 
estamos resolvendo por meio de nossos testes, poucos de ns poderemos responder de pronto. Alguns 
psiclogos iro at o ponto de sugerir que a inteligncia deve ser definida como o X que  medido no teste e 
que, na cincia, a medio  mais importante que tdas as indagaes sbre a natureza dos fen menos 
Isso deixa bem claro que, em vez de imitarmos o pac{ro essencial das pesquisas na Fsica, somos levados 
simplesmente a copiar sua forma quantitativa externa. Suponhamos que um fsico esteja interessado por vrios 
tipos de motor. No o teramos em alta conta se le se visse limitado, em suas investigaes sbre os motores, 
s seguintes provas: medio do volume dos motores, da temperatura em sua superfcie, da ionizao da 
atmosfera em trno dle, da freqncia mxima de rotao de cada um e de seu pso total. Sem dvida, tal 
homem no mereceria a menor considerao, se, contando com tais dados, passasse a calcular coeficientes de 
potncia, definir potncia por meio de seu curioso mtodo, deixar de lado tdas as indagaes acrca dos 
processos que permitem o funcionamento dos motores e ficar satisfeito com sse mtodo durante anos. Estou 
exagerando, sem dvida, com esta comparao. Assim o fiz intencionalmente, a fim de chamar a ateno para o 
fato de que os mtodos quantitativos per se esto longe de estabelecer o valor de determinadas atividades. 
Infelizmente, os intersses humanos so to limitados em geral que a preocupao apenas com o aspecto 
quantitativo das pesquisas provoca, sem demora, novas dificuldades. As pessoas que sofrem dsse mal no 
tardaro a deixar de reconhecer problemas que no convidem de pronto  investigao quantitativa. No 
entanto, na ocasio, tais problemas podem ser mais essenciais e, no sentido profundo da palavra, mais 
cientficos que muitas questes puramente quantitativas. A observao qualitativa pode constituir o primeiro 
passo para a soluo de tais problemas, mas, uma vez que na Fsica contempornea foram postos de lado os 
mtodos qualitativos, no temos coragem de executar tais tarefas, por mais urgentes que possam ser, 
realmente. Corremos, assim, o perigo de perder precisamente as oportunidades que seriam as melhores, nesta 
fase em que nos encontramos da Psicologia como cincia ainda imatura. 
Na Psicologia animal, a situao tem-se mostrado, algumas vzes, um tanto semelhante  que acabamos de 
discutir. Na experimentao com animais, o nico mtodo quantitativo , virtualmente, o estatstico. Em outras 
palavras: no medimos, de acrdo com a significao exata da palavra, mas nos limitamos a contar quantas 
vzes um animal ou um grupo de animais faz isto ou aquilo, em determinadas circunstncias. Naturalmente, 
para que possamos dispor de casos comparveis aos quais o processo possa ser adequadamente aplicado, 
colocamos os animais em situaes nas quais seu comportamento fica restrito a umas poucas possibilidades. 
Fazemos a contagem das atuaes reais e o resultado de nossas provas  apresentado em freqncias 
referentes s suas vrias possibilidades. O mtodo, em si mesmo, no  mau. Devemos compreender, todavia, 
que, quando le  usado com exclusividade, restringir, provvelmente, nosso conhecimento do 
comportamento. Tendo no esprito determinado problema, escolheremos, necessriamente, condies 
experimentais de tal ordem que excluam possibilidades que, de outra forma, estaria ao alcance do animal.  bem 
verdade que 
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alguns psiclogos pelo menos observam as formas restantes do comportamento em si mesmas e visam, assim, 
 interpretao de seus resultados quantitativos. Outros, porm, se negam a faz-lo, porque, na sua opinio, 
apenas so cientficas as observaes quantitativas. Isso faz com que les disponham de meros algarismos 
como material. Mesmo assim o processo pode ser vlido, se tais dados estiverem em poder daquelas felizes 
pessoas que sempre resolvem intressantes problemas experimentais. Se assim no fr, contudo, a mesma 
atitude resultar, provvelmente, em conservadorismo. Apaixonados por algarismos e curvas, sses 
pesquisadores manter-se-o afastados da verdadeira fonte de novas idias e de novos problemas em uma 
cincia jovem: urna viso ampla do assunto estudado. 
Difidilmente poderia ser exagerado o valor da informao qualitativa como suplemento necessrio aos 
trabalhos quantitativos. Na ausncia de tal informao, a psicologia do comportamento tornar-se- to estril 
quanto  supostamente exata. O intersse excessivo pelos mtodos quantitativos aplicveis no  um estado 
de esprito promissor em uma ocasio em que o progresso da psicologia depende mais da descoberta de novas 
questes que da montona repetio de mtodos padronizados. Se se disser que a psicologia do 
comportamento no precisa dste conselho, retrucarei que Watson foi criticado porque suas conhecidas 
observaes sbre as crianas no foram feitas sob a forma santificada de experincias controladas 
quantitativamente. No creio que aquelas observaes representem uma descrio exata das reaes primrias 
e do primeiro aprendizado das crianas, mas o fato  que elas revelam fatos interessantes, dos quais jamais 
teramos tomado conhecimento atravs das colunas de nmeros abstratos. Certa vez, um eminente psiclogo 
teve a gentileza de dizer algumas palavras elogiosas a respeito de meu prprio trabalho sbre o comportamento 
inteligente dos macacos, mas, ao mesmo tempo, acusou-me de ter deixado de lado o ponto mais importante, por 
no haver aplicado o mtodo estatstico. Ao meu ver, tal afirmativa denota certa incapacidade de reconhecer 
os problemas que procurei abordar em carter preliminar. sses problemas dizem respeito s formas 
caractersticas de comportamento inteligente em uma espcie particular, apresentadas em vrias situaes. 
Tudo o que  valioso nessas observaes desapareceria se fssem apresentados resultados de um modo 
estatstico abstrato. Em tais circunstncias, s caberia, a meu ver, uma advertncia sbre o perigo da 
glorificao dos processos quantitativos. A pesquisa quantitativa, repito, pressupe anlise qualitativa em 
que so descobertos problemas proveitosos. 
Na Fsica, as medies habitualmente resultam de questes especficas, que so, de certo modo, hipteses 
preliminares relativas a aspectos desconhecidos da natureza. Fatos observados, mas enigmticos, so, sem 
dvida, com muita freqncia, explicados na Fsica por presunes acrca de partes desconhecidas da 
natureza. O fsico, porm, no faz 
cais presunes a seu bel-prazer. Qualquer presuno particular que sirva para explicar certas observaes tem 
conseqncias muito diferentes dsses fatos. Naturalmente, todo o intersse se concentra nessas 
conseqncias e em seu exame. Vejamos um exemplo. Que se passa 
na conduo eletroltica? Arhenius formula a ousada hiptese de que, nas solues condutoras, as molculas 
se dissociam em iontes independentes e as cargas dessas partculas explicam o fato de ser a soluo boa 
condutora. Se, porm, os iontes so partculas prticamente independentes, sua independncia deve ter 
conseqncias quanto ao comportamento tico do eletrlito. Essas conseqncias so logo verificadas em 
novas experincias. O exemplo mostra que uma boa hiptese  to essencial ao progresso da cincia como o 
so a observao e a medio. De fato, o progresso da Fsica pode ser descrito como uma srie de movimentos 
para diante e para trs, do primeiro para o segundo e vice-versa. 
Os sistemas orgnicos oferecem incontveis fatos intrigantes em que o mesmo processo pode ser 
proveitosamente aplicado. Sabemos alguma coisa a respeito dos efeitos do estmulo sbre os rgos 
sensoriais de nossos sujeitos e tambm observamos suas prprias reaes. Entre sses dois trmos, porm, 
existe mais terra incgnita do que havia no mapa da frica h setenta anos. Evidentemente, o comportamento 
depende da dinmica do organismo, assim como das condies externas. At o ponto em que o interior do 
sistema de vida ainda no  acessvel  observao, nossa tarefa consistir em formular hipteses acrca dos 
fenmenos que ali ocorrem, pois muita coisa deve acontecer entre o estmulo e a reao. Essa reao no pode 
ser compreendida apenas em funo do estmulo perifrico. Quem conhece a histria da fsica, estar inclinado 
a acreditar que essa tarefa de encontrar presunes fecundas sbre os antecedentes ocultos do 
comportamento  talvez a mais importante de tdas. Todo o futuro da Psicologia pode depender dela. Nesse 
ponto, tda a fra criadora do behaviorismo deveria ser concentrada em uma emulao de alta qualidade com 
a fsica. A atitude crtica, que o behaviorismo mostra para com a introspeco e a experincia direta, constitui 
uma feio meramente negativa da escola. Onde esto suas idias positivas especficas? Se me sinto um tanto 
decepcionado com o trabalho do behaviorismo, o motivo , antes de mais nada, certa pobreza dos conceitos 
funcionais que a escola aplica  explicao do comportamento. No chega a constituir uma realizao 
satisfatria o fato. de tirar o behaviorismo da risiologia o. conceito de ao reflexa (iniusive os reflexos das 
secrees internas) e em se-. guida apresentar o condicionamento cpo. a funo que explica o apareci mento de 
novas formas de comportamento. Os partidrios do. beliaviorismo,. cornq muitas outras pessoas atualmente, 
parecem ser negativistas: convictos. No reconlecers a experincia direta na Psi cologia . seu primeiro 
mandamento, e No concebers de outras funoes a no ser reflexos e reflexos .c9ndicionados.  o segundo. 
NP: 
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precisamos voltar  primeira tese. O segundo mandamento, a meu vet,  incompatvel mesmo com o modesto 
conhecimento de fenmenos orgnicos de que dispomos. Tampouco compreendo por que o organismo 
deveria ser concebido de maneira to pobre. No posso deixar de admitir que, excluindo todos os tipos de 
funo, menos stes dois, o behaviorismo apresenta uma lamentvel estreiteza. Embora a escola se apresente 
como revolucionria, , na verdade, dogmticamente conservadora. Agora mesmo, quando j  uma cincia 
adulta, a Fsica admite pelo menos uma nova idia por ano a respeito do ncleo do tomo. Apesar da 
juventude da Psicologia, parece que raras vzes ocorreu aos adeptos do behaviorismo que novas idias 
funcionais pudessem tornar-se necessrias em nossa cincia. Segundo parece, quando surgiu o behaviorismo, 
algum formulou a verdade final acrca das possibilidades do organismo infante. 
Por que afirmo que so pobres os conceitos funcionais do behaviorismo? Devido a uma comparao com os 
vrios processos que os fsicos atribuem ao mundo inamimado. E, repito, alguns simples sistemas fsicos so 
muito mais ricos na variedade de suas funes que o sistema nervoso do homem aos olhos dos adeptos do 
behaviorismo. No resta a menor dvida, por exemplo, que as blhas de sabo no foram condicionadas at 
hoje e, no entanto, com as caractersticas funcionais que apresentam, elas me parecem decididamente 
superiores ao organismo, tal como  visto pelos adeptos do behaviorismo. O mesmo se pode dizer no que se 
relaciona com inmeros outros sistemas do mundo inanimado. Embora lhes faltem reflexos e reflexos 
condicionados, seu comportamento freqentemente faz lembrar, de modo curioso, o comportamento animal. No 
behaviorismo, porm, seria uma heresia seguir-se tal rumo. Quando comeou a imitar as cincias naturais, o 
behaviorismo no excluiu apenas a experincia direta de seu programa. Por mais estranho que parea, excluiu 
tambm a riqueza de conceitos funcionais que seu ideal, a cincia fsica, oferecia  vontade. At mesmo alguns 
membros da escola esto comeando a protestar contra essa atitude. 
O observador que examinar sem preconceitos o comportamento humano e animal, diflcilmente verificar que 
reflexos e reflexos condicionados sejam os conceitos mais naturais para serem usados em uma explicao dos 
fatos. Uma vez, porm, que uma pessoa se convence plenamente de que tda a verdade sbre o sistema 
nervoso pode ser explicada dessa maneira, deixar de ter, naturalmente, um incentivo real para a livre 
observao do comportamento. Uma vez que no ache necessidade de novos conceitos funcionais, no iria 
perder tempo com uma espcie de informao da qual no poderiam surgir tais conceitos. Por outro lado, a 
limitao da observao  contagem de algumas poucas reaes, que smente so possveis em costumeiraS 
situaes experimentais, contribui para proteger o esquema conservador, dentro do qual trabalha o 
behaviorismo. Dsse modo, a estreiteza da observao protege a estreiteza da teoria. 
Mesmo, porm, com um intersse mais imparcial pelas vrias formas de comportamento, como iremos descobrir 
novos conceitos funcionais? Ser to larga a brecha existente entre as condies observveis do estmulo e as 
reaes abertamente observveis, que tenham de ser prematuras as hipteses acrca das funes de conexo? 
No  preciso dizer que deveremos utilizar-nos de tdas as pistas fornecidas pela Fisiologia nervosa e pela 
Endocrinologia. Mesmo, porm, as mais recentes descobertas nesses campos no dizem precisamente o que 
necessitamos para os nossos objetivos. Em tal situao, qualquer presuno, virtualmente, ser mais til que a 
simples espera. As hipteses da cincia emprica baseiam-se muitas vzes em provas bastante precrias. Como 
tais presunes tero de ser verificadas e constantemente corrigidas, nada podem ter de prejudiciais. Se se 
mostrarem total ou parcialmente verdadeiras, ningum ter escrpulos sbre a legitimidade de sua origem. Se 
se mostrarem errneas ou estreis, podero, a qualquer tempo, ser postas de lado e substituidas por idias 
melhores. 
De fato, a Psicologia da Gestalt no tem nenhuma dificuldade particular em formular suas principais hipteses 
sbre a dinmica do sistema nervoso. Nas observaes do comportamento dos animais e do homem, no h a 
experincia direta dos sujeitos. De qualquer maneira, se existe tal experincia, o experimentador no presume 
que ela exera influncia sbre o curso dos fenmenos fisiolgicos que se introduzem entre as condies 
externas e o comportamento manifesto. As presunes acrca dsses fenmenos devem ser susceptveis de 
explicar o comportamento observado sem referncia a fatres no fisiolgicos. A experincia direta no  uma 
fra que possa interferir na cadeia da causao fisiolgica. (Os dualistas formulam a hiptese oposta, mas no 
creio que sua maneira de raciocinar contribua valiosamente para a anlise funcional do comportamento). 
Embora esta seja a maneira pela qual tenho de raciocinar acrca de meus sujeitos, no posso excluir minha 
prpria experincia direta, quando observo seu comportamento. Como poderia exclui-la, se mesmo quando 
emprego os mtodos mais indiretos na Fsica, tenho de confiar em fatos perceptivos? Alm disso, como vimos, 
no estudo do comportamento tenho de usar muitas formas de experincia objetiva que j no so usadas nos 
processos quantitativos da Fsica. Se, porm, minha experincia  aceitvel como base de minhas afirmaes 
acrca do comportamento de outros, por que motivo deveria eu hesitar em utiliz-la, ao formular hipteses 
acrca das funes do sistema nervoso? 
Suponhamos que eu esteja sendo usado como sujeito. Nesse caso, o experimentador mais uma vez desejar 
conhecer que processos ocultos em meu sistema nervoso se interpem entre as condies estimulantes 
observadas e o comportamento observado. Mas eu posso ajud-lo a construir a ponte sbre essa brecha. 
Muitos aspectos de meu comportamento manifesto so acompanhados de experincia direta. Ora, no 
duvidamos que essa experincia est estreitamente relacionada com 
37 
alguns dos processos acrca dos quais o experimentador deseja ter pelo menos uma hiptese verossmil. Em 
tais condies, parece natural usar minha experincia direta como base de operaes tericas.  bem verdade 
que nem todos os fenmenos de meu sistema nervoso que contribuem para o meu comportamento, so 
acompanhados de experincia direta. Nesse ponto, qualquer hiptese que formulemos dessa maneira ser de 
mbito limitado. Dever deixar-se aos cuidados da Fisiologia ultrapassar essas limitaes no futuro. 
Infelizmente, as concepes da Fisiologia acrca das funes do crebro so, hoje, quase to especulativas 
quanto nossas prprias suposies. Ser, assim, aconselhvel tirar-se o mximo proveito da oportunidade que 
a deduo partida da experincia direta oferece ao psiclogo. 
No se prope que, para tal fim, faamos a introspeco no sentido tcnico da palavra. Apenas sero usadas 
para a finalidade visada simples informaes a respeito da experincia, as informaes que esto aptos a fazer 
todos os observadores de pessoas, animais, instrumentos, etc. Comecemos com a experincia objetiva. Em 
condies normais, a experincia objetiva depende de fenmenos fsicos que estimulam os rgos do sentido, 
mas tambm depende de fenmenos fisiolgicos da espcie que pretendemos agora examinar. O fsico se 
interessa pelo primeiro fato: a dependncia da experincia objetiva com relao a eventos fsicos, ocorridos 
fora do organismo lhe permite deduzir, da experincia, em que consistem aqules fenmenos fsicos. Ns nos 
interessamos pelo segundo fato: como a experincia depende de fenmenos fisiolgicos ocorridos no crebro, 
tal experincia deve conter sugestes sbre a natureza daqueles processos. Em outras palavras, argumentamos 
que, se a experincia objetiva nos permite apresentar uma descrio do mundo fsico, tambm nos deve permitir 
apresentar uma descrio do mundo fisiolgico com o qual est estreitamente relacionada. 
 evidente, contudo, que, se as caractersticas dos processos fisiolgicos concomitantes tm de ser deduzidas 
de determinadas caractersticas da experincia, necessitamos de um princpio diretor que discipline a transio. 
H muitos anos, um princpio dessa espcie foi apresentado por E. Herring. le se formula da seguinte maneira: 
as experincias podem ser classificadas sistemticamente, se seus vrios tipos e matizes so ajuntados de 
acrdo com as suas semelhanas. O processo  comparvel quele mediante o qual os animais so 
classificados na Zoologia e os vegetais na Botnica. Os processos de que dependem as experincias no so 
diretamente conhecidos, mas, se fssem. conhecdos, tambm podriam ser classificados de acrdo com suas 
semelhanas. Entre s duas classificaes sistemticas, a da exprincia e a dos processos fisiolgicos 
concomitantes, podem ser presumidas vrias relaes com susceptveis de ser alcanadas. A relao entre os 
dois sistemas de classificao, porm, smente ser simples e clara, se supusermos que ambas tm os mesmos 
sistemas de forma ou estrutura qa. Algumas vzs, &te principio  formulado mais explicitamente em 
as 
certo nmero de axiomas psicoffsicos.1 A sse respeito, ser-nos- suficiente apresentar alguns exemplos de sua 
aplicao. 
O som de determinado tom pode ser produzido em muitos graus de alturas experimentadas. Em trmos geomtricos, a 
ordem natural sistemtica de tdas essas alturas  uma linha reta, porque, ao partirmos do mais brando ao mais alto dos 
sons, temos a impresso de estar-nos movendo constantemente na mesma direo. Pergunta-se, agora, qual a caracterstica 
dos fenmenos cerebtais simultneos que correspondem  altura experimentada. O princpio no d uma resposta direta, 
mas supe que quaisquer que possam ser as caractersticas em questo, suas vrias tonalidades ou graus devem mostrar 
exatamente a mesma ordem que a altura de som apresenta, isto , a de uma linha reta. Alm disso, se no sistema de 
experincias um tom determinado est situado entre dois outros, na ordem dos fenmenos cerebrais correspondentes o 
fator fisiolgico correspondente ao primeiro tom deve tambm estar situado entre os processos correspondentes aos outros 
dois. Isso assegura a igualdade da estrutura dos dois sistemas a que o princpio se refere. 
Parece que a lei do tudo-ou-nada no nos permite escolher a intensidade da atividade nervosa como a correlao 
fisiolgica dos graus experimentados do som, O princpio, porm, pode ser igualmente bem aplicado, se a freqncia ou 
densidade dos impulsos nervosos fr tomada com a correlao do tom. 
Outro exemplo: as cres podem ser estudadas em sua relao com os processos cerebrais correspondentes. Esta relao foi 
estudada cuidadosamente por G. E. Mller.2 Na verdade, suas presunes vo alm do princpio ora em exame, pois le 
formula hipteses acrca de processos retinianos. O princpio em si mesmo se aplica apenas aos processos cerebrais que 
implicam diretamente a experincia visual. A teoria de Mller  tambm mais especfica, uma vez que inclui uma exposio 
acrca da natureza dos processos retinianos em si mesmos, presumindo-se que les sejam reaes qumicas. Essa 
transgresso do princpio  perfeitamente vlida, pelos motivos que se seguem. Se o sistema de experincias da cr e dos 
processos fisiolgicos relacionados deve ter a mesma estrutura, sses fenmenos fisiolgicos devem variar justamente em 
tantas direes ou dimenses quanto as cres.  perfeitamente possvel que as reaes qumicas constituam o nico tipo 
de processo que satisfaz a essa condio. Assim, o princpio da identidade da estrutura do sistema serve para restringir o 
nmero de fatos que podem ser levados em considerao, quando so desejadas hipteses mais especificas. 
1 Cf. O. E. M11]ler Zeitsclir. /. Pzyolwl. 14, pg. 180. 
2 La. cit. 
30 
A Psicologia da Gestalt baseia-se em um princpio que , ao mesmo tempo, mais geral e mais aplicvel 
concretarnente que o de Hering e Mller. Lstes autores referem-se  ordem meramente lgica das experincias 
que, para essa finalidade, so abstradas de seu contedo e julgadas de acrdo com suas semelhanas. A tese 
 a de que, quando fenmenos fisiolgicos correlatos tambm so deduzidos de seu contexto e tambm 
comparados quanto s suas semelhanas, a ordem lgica resultante deve ser a mesma das experincias. Em 
ambos os casos, ver-se- que a ordem em questo  a ordem dos espcimes desaparecidos, que tm o seu 
lugar adequado em um museu. A experincia em si mesma, porm, apresenta uma ordem que  ela prpria 
experimen tada. Assim, por exemplo, neste momento tenho diante dos olhos trs pontos brancos em uma 
superfcie negra, um no meio do campo e os outros em posies simtricas, de cada lado do primeiro. Trata-se, 
tambm, de uma ordem, que, todavia, em vez de ser do tipo meramente lgico,  concreta e pertence aos 
prprios fatos da expe rincia. Presumimos que tambm esta ordem depende de fenmenos fisiolgicos 
ocorridos no crebro. E nosso princpio refere-se  relao entre a ordem concreta experimentada e os 
processos psicolgicos encobertos. Quando aplicado ao presente exemplo, o princpio afirma, primeiro, que 
aqules processos so distribudos em certa ordem e, em segundo lugar, que essa distribuio  to simtrica, 
no que diz respeito ao aspecto funcional, como o grupo de pontos no que diz respeito ao aspecto visual. No 
mesmo exemplo, um ponto  visto entre os dois outros, e essa relao constitui uma parte da experincia, tanto 
quanto o branco dos pontos. Nosso princpio diz que algo nos processos ocultos deve corresponder ao que 
chamamos posio intermediria na viso. De maneira mais particular, sustenta-se que a posio 
intermediria experimentada corresponde a uma posio intermediria funcional nas inter-relaes 
dinmicas dos fenmenos cerebrais que a acompanham. Quando aplicado a todos os casos da ordem espacial 
experimentada, o princpio assim pode ser enunciado: A ordem experimentada no espao  sempre 
estruturalmente idntca a uma ordem funcional na distribuiao dos processos cerebrais ocultos. 
Lste  o princpio do isomorfismo psco fsico, na forma particular que assume no caso da ordem espaciaJ. Sua 
plena significao tornr-se- mais clara nos captulos seguintes. Por enquanto, mencionarei outra aplicao 
do mesmo princpio. Constitui experincia freqente verificar-se que um fenmeno se situa, no que se refere ao 
tempo, entre dois outros. Mas o tempo experimentado deve ter um correspondente funcional nos eventos 
cerebrais, da mesma maneira que o espao experimentado. Nosso princpio diz que a posio intermediria 
temporal na experincia corresponde a uma posio intermediria funcional na seqncia de fenmenos 
fisiolgicos ocultos. Se, desta maneira, o princpio fr de nvo aplicado geralmente, chegamos  assero de 
que a ordem constatada pela experincia no tempo  sempre estrutu ralment 
idntica a uma ordem funcional na seqncia dos processos cerebrais correi atos. 
O campo de aplicao do princpio no se limita s ordens temporal e espacial. Constatamos, pela experincia, 
outras ordens alm das de relaes meramente espaciais e temporais. Certas experincias pertencem  mesma 
natureza de uma maneira especfica ou so da mesma natureza de maneira menos ntima. Tais fatos tambm 
constituem objeto de experincia. No mesmo momento em que escrevo esta frase, uma voz desagradvel 
comea a cantar em uma casa vizinha. Minha frase  algo que, embora distendida no tempo,  experimentado 
como certa unidade  qual no pertencem aquelas notas agudas. Isto  verdade, embora ambas as experincias 
ocorram ao mesmo tempo. Neste caso, nosso princpio passa a ser assim enunciado: as unidades da 
experincia cores pondem a unidades funcionais nos processos fisiolgicos ocultos. Tambm a sse respeito, 
a ordem constatada pela experincia  tida como a verdadeira representao de uma ordem correspondente nos 
processos de que depende a experincia. Esta ltima aplicao do princpio talvez tenha a maior importncia 
para a Psicologia da Gestalt. Como hiptese fisiolgica acrca de experincias sensoriais, assim como acrca de 
processos mais sutis, ela abrange prticamente todo o campo da Psicologia. 
Limitei-me a tomar um exemplo fora da esfera da experincia objetiva, no sentido estrito da expresso. Uma 
frase que estou redigindo no faz parte da experincia objetiva, do mesmo modo que uma cadeira que se 
encontre diante de mim. No entanto, minha assero a respeito da frase no  menos simples e evidente do que 
foram as outras, que se referiam  ordem no espao e no tempo experimentados. Nem sempre, contudo, isto se 
d. A observao de experincias subjetivas no pode ser recomendada sem limitao. No caso presente, 
smente afirmativas muito simples neste campo podem ser consideradas como suficientemente dignas de 
confiana. No h necessidade de ultrapassarmos, por enquanto, a esfera da experincia objetiva. J vimos que 
esta oferece uma base adequada de operaes para os nossos objetivos imediatos. 
Nos pargrafos anteriores, minha prpria experincia serviu como material que sugere presunes sbre a 
natureza de elementos constituintes do comportamento que, de outro modo, no poderiam ser observados. 
Ora, a nica maneira de que disponho para transmitir minhas observaes nesse campo ao pblico cientfico  
a linguagem falada ou escrita que, tal como entendo, se refere a tal experincia. Chegamos  concluso, porm, 
de que a linguagem, como seqncia de fatos fisiolgicos,  o resultado externo de processos fisiolgicos 
anteriores, entre outros daqueles de que a minha experincia depende. De acrdo com a nossa hiptese geral, a 
ordem concreta daquela experincia retrata a ordem dinmica de tais processos. Assim, se, para mim, as minhas 
palavras representam uma descrio de minhas expe 40 
41 
rincias, elas so, ao mesmo tempo, representaes objetivas de processos que formam a base de tais 
experincias. Em conseqncia, no tem grande importncia saber se as minhas palavras devem ser 
consideradas mensagens acrca da experincia ou acrca daqueles fatos fisiolgicos, uma vez que, no que diz 
respeito  ordem dos fenmenos, a mensagem  a mesma em ambos os casos. 
Se voltarmos, agora,  observao do comportamento, temos de lidar com a linguagem como forma particular 
de comportamento dos sres humanos. Tambm aqui podemos, sem perigo, considerar a linguagem como uma 
mensagem que se refere a fatos situados fora de seu prprio campo. Smente a concepo mais superficial iria 
estudar as palavras meramente como fenmenos fonticos. Quando ouve uma argumentao cientfica, o 
prprio adepto do behaviorismo h de verificar que reagir no s caractersticas fonticas da fala, mas  sua 
significao simblica. Assim, por exemplo, le considerar como equivalentes substantivos tais como 
experimentao e Versuch, animal e Tier, embora tanto no primeiro como no segundo caso as 
palavras equivalentes sejam fonticamente muito diferentes. Por que haveria tal atitude de ser modificada, 
quando acontece que a pessoa que fala  tambm o sujeito e que nos apresenta uma informao reveladora? 
Repetindo: as afirmaes de um sujeito podem ser consideradas tanto como indicadoras de suas experincias 
como dos processos em que tais experincias se baseiam. Se o sujeito diz: ste livro  maior do que aqule 
outro, suas palavras podem ser tomadas como se referindo a uma sua experincia-comparao, mas tambm 
como apresentando uma relao funcional correspondente entre dois processos sensoriais. Como, de acrdo 
com o nosso ponto de vista, a mesma ordem prevalece em ambos os casos, a alternativa  destituda de 
importncia particular. De acrdo com a psicologia do comportamento, a interpretao fisiolgica deve ser 
apresentada, mas no h motivo que obrigue a ser excluda a outra interpretao. O comportamento de um 
pinto pode revelar-me, sem necessidade de palavras, que a ave  capaz de reagir a um grau de claridade em 
comparao com outro. Por outro lado, se, no decorrer de uma experincia, um sujeito humano me diz que um 
objeto lhe parece mais claro que outro, a importncia cientfica dessa afirmativa  precisamente a mesma que a 
do comportamento do pinto. Por que motivo, portanto, deve o experimentador deixar de lado a linguagem, que 
 uma das formas mais instrutivas do comportamento? Certamente, aplicando-se ao homem a mesma tcnica 
que aplicamos ao pinto, poderemos evitar o uso da linguagem na psicologia humana. Mas para qu? A repulsa 
dos adeptos do behaviorismo  linguagem parece ter motivos de ordem meramente histrica. Os partidrios da 
introspeco utilizaram-se de relatos verbais em suas tentativas de analisar a experincia. Estou pronto a 
admitir que aquilo que le chamavam de introspeco parecia ter valor limitado. Infelizmente, em 
42 
conseqncia dsses esforos errneos, os adeptos do behavjorismo ficaram condicionados negativamente, no smente no 
que se refere  introspeco em si mesma, como tambm no que diz respeito a outras coisas inteiramente inocentes que, via 
de regra, acompanham a introspeco. Da sua ogeriza pela linguagem. 
BIBLIOGRAFIA 
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W. Khler: Dynamie in Psychlogi. 1940. 
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